São Paulo, 2003 | Ricardo Rosas e Tati Wells
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Um espectro ronda a cultura – o espectro da mídia tática. Desafiante, brincalhona, iconoclasta e
consciente, a mídia tática não tem papas na língua para por em questão os padrões do bom
gosto, da apatia social, da prática artística ou da assepsia ideológica das novas mídias
A partir dos anos 80 e com o advento de tecnologias baratas, uma nova forma de ativismo
começa a surgir levada pela idéia de nomadismo e resistência. Esses movimentos visam oferecer
uma outra maneira de pensar a função transgressiva da comunicação, muitas vezes através de
um discurso estético. Essas características vêm tanto dos movimentos de contracultura dos anos
60 quanto da versão européia de estética revolucionaria vanguardista. As vanguardas mudaram o
lugar da arte das galerias para as ruas reintegrando-a à práxis da vida, mas a experimentação
cultural não pode ser privilégio de uma política ou movimento assim como a arte não precisa mais
ser a expressão maior de uma superioridade moral.


Mídia Tática é um conceito que se firmou nos anos 90, fruto de práticas de ativistas de mídia e
festivais de novas mídias na Europa e nos EUA. Seu fundamento básico é a produção “faça-
você-mesmo”, realizando um uso diferenciado das potencialidades de comunicação tornadas
possíveis graças à crescente acessibilidade de materiais e equipamentos de mídia.
Desvinculada de interesses de mercado e de agendas ideológicas associadas aos grandes meios
de comunicação, a mídia tática dá voz a todos aqueles excluídos desses meios: classes
desfavorecidas, minorias (raciais, sexuais, etc.), comunidades alternativas, dissidentes políticos e
artistas de rua, entre outros.

Mídia tática usa não somente os meios usuais, mas também os espaços públicos – não como
mera maquiagem urbana, mas voltada a questões de interesse geral, e por isso sua natureza
híbrida misturando cultura popular, cultura oposicionista e mesmo a cultura de massas. Daí
também sua vasta abrangência, que vai da reutilização de mídias tradicionais como tv, rádio,
vídeo, meio impresso e artes em geral, a web sites, produção de softwares e todo tipo de mídia
eletrônica, incluindo igualmente, se for o caso, performance, djs e teatro de rua. Rua = esfera
pública alternativa que permite uma maior interação entre obra e audiência. Mídia como
entendimento de seu próprio potencial criativo, e a conscientização como um processo critico
contra a hegemonia deformadora.

Isso não quer dizer que ela seja somente uma mídia alternativa, pois o conceito de mídia tática foi
criado justamente para fugir destas dicotomias – amador vs profissional, alternativo vs.
mainstream – baseado-se justamente na flexibilidade de suas extensões, de suas respostas,
assim como no trabalho colaborativo e em sua mobilidade entre as diferentes mídias. O mais
importante são as conexões temporárias que conseguem ser feitas através dela.
Mas qual o sentido de um “Laboratório de Mídia Tática” no Brasil?

Ocorre que muita gente tem produzido mídia tática por aqui, mesmo sem saber que o que fazem
tenha um nome. Seja intervenção urbana, usos táticos da arte, da web, de rádios piratas, fanzines
e por aí vai, o fato é que estamos assistindo a um verdadeiro boom de mídia indie no Brasil. Algo
que não se poderia deixar passar despercebido. Além disso, urge uma inclusão digital que
contemple, por exemplo, quem não possa bancar um micro. O conceito de mídia tática, então,
pode ser adaptado à realidade brasileira ao propor alternativas, formas de mobilizações que
propagam circuitos interdependentes. Essas buscas por autonomia falam sobretudo de educação,
disseminação tecnológica inclusiva e relações centro-periferia.

Antropofagizamos práticas de mídia para, além de propor a coletividade e autonomia das
relações produtivas, reconhecer igualmente a periferia – somos todos periféricos em relação ao
Império – como realidade marginalizada e, antes de tudo, expressão primeira da lógica colonizada
das culturas latino-americanas.

O estudo dessas praticas, através de um laboratório, demonstraria como utilizamos, consumimos
e passamos adiante essas representações, pois já sabemos que as usamos muito mais
criativamente do que supomos. Um laboratório, sendo um espaço de experimentação, de troca de
informação e experiências, e um local em que químicas insuspeitadas acontecem. Um laboratório
de mídia tática é um espaço em que todos nós somos artesãos de nossa mídia. Onde todos
podem produzir, interferir, recombinar, informar a nossa realidade ordinária e assim voltar aos
pequenos mitos cotidianos. Os praticantes de mídia tática são aqueles que não somente
produzem suas histórias locais, seus dramas, alegrias e preocupações, como também as
protagonizam.

Seja você a sua mídia, esse é o nosso lema!

E parafraseando o antropófago-mor,
“A nossa independência ainda não foi proclamada”.
Contra a realidade social, vestida e opressora, catalogada de estatísticas e personagens de
novela. Contra as guerras santas, os reality shows e os tráficos de sonhos disfarçados pela
conivência dos jornais espetaculosos ante a anestesia e a cegueira de quem vê apenas o lado de
cá das grades que se auto-impõem – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições
e sem penitenciárias de um outro mundo possível.

  1. Este texto foi o manifesto do festival Mídia Tática Brasil, realizado em março de 2003, na Casa
    das Rosas, em São Paulo.
    Fonte: Mídia Tática (www.midiatatica.org).
    Fonte: http://www.rizoma.net/interna.php?id=174&secao=intervencao
    Consulta em 23/02/2008

ROSAS, Ricardo, WELLS, Tatiana. Que tenha a mídia tática! 2003. (2 p.) [artigo]

Um dos primeiros eventos que catalizam o espírito desta rede de solidariedade midiática se chama Mídia Tática Brasil, ocorrido em março de 2003, um festival de arte em rede, comunicação independente, música experimental, tecnologias livres e (re-)apropriadas e intervenções urbanas, aonde uma série de coletivos de São Paulo buscaram criar uma sinergia entre os processos coletivos e os espaços públicos, através do compartilhamento do esforço de produção deste evento. Ao mesmo tempo re-significando os espaços tradicionalmente considerados artísticos. Era a primeira vez que se juntavam num único ambiente, em salas chamadas de “ocupações”, rádio ativistas, artistas, teóricos de mídia, universitários, jornalistas independentes, codeiros linux e músicos experimentais.

O conceito de Mídia Tática, sob o formato de Laboratório de Mídia, é oriundo da Holanda dos anos 90, aonde se popularizaram novas tecnologias de mídia caseira como câmeras e mini equipamentos de música, e a própria internet, mas que adquire um novo vigor no Brasil aonde chegou logo depois, se imbricando tanto com o movimento de rádios livres quanto a mídia independente e o software livre, que floresciam no Brasil à época. Em 2003 o laboratório catalizou ativistas, hackers, feministas, comunicadores independentes para novos experimentos políticos e experimentais de tecnologia, da reapropriação tecnológica ás comunidades em rede. A experimentação sempre fez parte de uma cultura própria brasileira, uma contracultura digital, forma resistente de se utilizar as ferramentas de comunicação também  em todo continente, desde a Imprensa Nanica durante a ditadura, ao levante Zapatista em 1994 criando a ideia de “Guerra da Net”, “inundando” a Net de solidariedade, resistência ativa e internacionalista que se materializou por muitos anos, com reverberaçoe até os dias de hoje, mediante muita navegação atenta.

Em 2003, insuflados pelos protestos globais, Fóruns Sociais e o embrião de um governo de esquerda, a precariedade insuflada de gambiarras e reciclagens funcionou como energia criativa recombinadora. Como semeou Ricardo Rosas em 2004, criavámos nossa Digitofagia uma forma própria de produzir arte e mídia independente no Brasil. Giseli nos trazia também a referencia a Hakim Bey, de uma Zona Autônoma Temporária uma imersão em/de arte livre.

No inicio dos anos 2000, o software livre também estava em ebulição no brasil, nos encontros techies como FISL (Fórum internacional do software livre) – ou os primeiros telecentros em GNU/Linux do Acessa São Paulo e se cristalizaram na rede Metareciclagem sob a forma de uma metodologia de apropriação social das tecnologias livres, com iniciativas diversas. Combinada com a rede do Centro de Mídia Independente que vinha de uma explosão de coletivos por todo o planeta, recém-criado na cidade, mais a experimentação ativista de coletivos de arte que se consolidou posteriormente nas ocupações de moradia de São Paulo, como Prestes Maia, fazia daquele momento bem propicio a uma fusão explosiva, mesmo que temporária.

Ampliando as fronteiras entre os meios digitais, a internet mas também os processos sociais de rua e as políticas digitais, mobilizando pessoas de praticas e campos diversos em reuniões publicas e ambientes de diálogo permanente, o MTB tinha como objetivo (segundo seu Manifesto Que Venha a midia Tatica! de 2003):

“politizar as mídias, a arte e as tecnologias inserindo a meme da tática como modelo de (re-)apropriação social.”

“Mídia tática como uma pratica tem uma historia longa, e parece seguro predizer, um futuro ainda maior. Ainda assim, sua existência como um conceito particular ao redor de um movimento social, ou mais precisamente, de uma rede auto-consciente de pessoas e projetos que ali se coalesceria, teve uma vida relativamente curta, muito confinada a primeira época da internet como um meio de massa (1995-2005). (…)

“O que acontece quando a mídia “faça-você-mesmx”, tornada acessível pela revolução do consumo de eletrônica e expandidas formas de distribuição (de acesso a cabos públicos e a internet) são exploradas por grupos e indivíduos que se sentem atingidos ou excluídos de uma cultura mais ampla? Mídia tática.  Mídia tática não somente para reportar eventos, já que nunca são imparciais, sempre participam e é isso mais do que qualquer outra coisa que os separa da mídia comercial (…)

O principio de tática vem como oposto a estratégia, no sentido de não efetuar um confronto direto com o rival, mas através de “táticas”, de modos de atuação que minem as suas forcas e efeitos devastadores. O conceito deriva dos estudos de Michel de Certeau em “A Invenção do Cotidiano” e a definição em si do artista plástico polonês Krzystof Wodiczko, criador de veículos de alumínio para moradores de rua. O termo foi materializado nas series de manifestos (ABC da Mídia Tática, DEF da Mídia Tática), lançados na lista de discussão Nettime (www.nettime.org), por Geert Lovink e David Garcia. Na prática, táticas são “as técnicas pelas quais os fracos se tornam mais fortes que os opressores”.

Ricardo Rosas e Tatiana Wells, Que Venha a Midia Tatica! Manifesto Midia Tatica Brasil